A fumaça, capitulo 3

-Por pouco você não racha a cabeça no banco. Disse alguém no momento em que Alice estava acordando pela segunda vez no dia, - Como não tenho muita força pra carregar você deixei você dormir ai ate que resolvesse voltar.
Alice sentou encostando-se em um banco ao olhar percebeu que estava em uma velha igreja, os bancos surrados um velho cristo crucificado naquela imagem que Alice achava a mais hipócrita de todas, ninguém lembrava as grandes obras do bom cristo mais todas as igrejas mostravam ele morto.
-Quem e você? Quis saber tocando a cabeça e sentindo um galo nascer no alto dela olhou para a mulher sentada a sua frente com se esperasse a missa começar. Estava de vestido marrom sandálias de dedo cabelos grisalhos amarrados em uma longa trança. Deitado sobre o colo um bengala.
-Sou Agatha sou a dona desta casa. A mulher olhava para frente para o cristo salvador. A arma ainda estava na cintura mais sentia falta de algo. Seu chapéu.
-Você mora aqui há quanto tempo? Perguntou mais outra pergunta brotou em sua língua. –Como faço para ir embora. Tentou levantar mais o mundo girou jogando ela no chão.
-Moro aqui dês de sempre e não se sai daqui. A mulher olhou para Alice com intensos olhos negros alguns fios de cabelo escapavam e caiam sobre a testa sua pele era morena. Alice sorriu.
-Claro afinal e um pesadelo não e? Lembrou das sessões de psiquiatria e pensou que talvez fosse melhor nunca ter parado com elas. –Devo ter caiu naquilo que o doutor chamou de histeria.
-E um pesadelo sim mais não seu. Disse a mulher se levantando então outro sorriso brotou nos lábios de Alice .
-Fantasmas não existem, meu marido sempre dizia. Lembrou dos mortos a seguindo. –Preciso dos remédios que eu tomava. Olhou para Agatha. –Você deve ser a enfermeira e isto e um hospital. A Loucura estava preste a domina-la os olhos distantes enquanto falava a nevoa a radio os mortos... Lembrou deles se arrastando. –Por favor. Disse se arrastando ate Agatha. –Me deu uma boa dose quero sair desta loucura eu não suporto este pesadelo. Agarrou-se ao vestido da velha mulher que se levantou e disse.
-Acalme-se ou vai acabar junta com eles. Alice sorriu do que a mulher disse e continuou agarrada ao seu vestido sorrindo histérica a loucura brotando em sua face.
-Quero acordar. Ela gritou então um clarão tomou conta de seus olhos e ela cai de lado sentindo dor no rosto a marca da mão de Agatha ficou no rosto de Alice.
-Talvez isso a acorde. Disse a velha apoiando a bengala no chão e indo andando na direção da cruz.
Alice não olhou apenas ouviu os passos da mulher sumirem aos poucos seu rosto ardia sua cabeça doía em fim ela percebeu que não era um sonho. Nunca fora apenas um sonho, sempre sonhou com aquela cidade quando criança sonhou... Previu... A confusão a vez chorar deita de cara para a madeira empoeirada que era o chão. Chorou por cair na realidade e por perceber que ela era pior que seus sonhos. Seus pesadelos.
Levantou devagar olhando tudo a sua volta janelas altas naquela que parecia ser a melhor construção da cidade, cidade? Ate então Alice achava que aquilo não passava de um vilarejo mais... Bom era maior que um simples vilarejo. Andou ate a porta e ficou parada de frente com ela. Havia uma janela de cada lada quase do mesmo tamanho da porta. Andou para a da direta e olhou para fora. Só a nevoa. Veio a sua cabeça uma velha expressão que a fez sorrir por um segundo. Nem uma viva alma na rua.
Virou-se e seguiu andando pelo corredor entras os bancos de madeira comidos pelos cupins castigados pelo tempo, farelos De madeira caiam dos bancos, buracos pequenos se formavam não madeira. Olhou para o chão e percebeu então que estava descalça.
A mesa do altar estava nas mesmas condições das cadeiras da igreja. Olhou para o teto por um momento e viu o forro de madeira e as teias de areia. Sobre a mesa nem uma daquelas peças sagradas que ditavam sua fé no bom cristo. De cada lado da mesa avia um candelabro, as velhas colunas sem cor subiam ate o telhado. Passou das colunas. Havia nossa senhora a esquerda perdendo as cores, já sem a pintura dos olhos o que a deixava com olhos negros. E José do outro sem uma das mãos enquanto a outra carregava um bebe que perdera a cor e agora era branco com um fantasma.
Mas alguns passos e ela viram duas portas atrás do altar às quais não podem ser vista da entrada da igreja, a da direita dizia prefeitura do município de São Judas. A outra se lia secretaria paroquial. Viu que Agatha estava na secretaria paroquial e foi para lá que ela andou.
Parou por um instante ao sentir algo crescer em sua mente viu um homem na sala da prefeitura jovem um chapéu igual ao seu na cabeça, estava lendo algum tipo de documento quanto outro mais velho com roupas surradas apareceu na porta chapéu de palha e olhos azuis uma cara não muito amigável.
-Coronel, como o senhor já sabe alguns de nos vamos embora.
-Sim já sei José, na verdade a maioria de vocês vão, o que você quer? O José na porta pareceu não gostar do tom do coronel.
-Achamos que temos algum direito sobre tudo que tem nesta fazenda e... mais ante que ele terminasse a frase o homem levantou interrompendo o velho.
-Direito. Indagou em pé. –Que tipo de direito?
-Nos colocamos este lugar pra funcionar, sem nossos braços esta fazenda não passaria de. Pensou antes de falar. –De nada. O jovem atrás da mesa sorriu.
-Sabe se não fossem vocês a trabalhar aqui seriam outros, como viram outros para cá. Sentou-se de novo. –O que você quer na verdade?
-Queremos. José fez questão de ressaltar o plural. –Queremos parte dos lucros deste lugar.
-Sabe José, se você não fosse embora atrás de sua milagrosa chuva eu o contrataria para serviços mais burocráticos na fazenda, você fala muito bem sabe se expressar nem parece um caipira.
-Obrigado.
-Mais não vou lhes dar parte do meu dinheiro, todo o dinheiro que eu devo a vocês será pago no fim do mês como o de todos, mais pra mostrar que tenho gratidão coisas que vocês não têm deixo que levem alguns sacos de milho para começaram sua vida nova.
-Mais. Exclamou José porem foi interrompido.
-Assunto encerrado. O coronel abaixou a cabeça e voltou a ler seu documento, frustado e com raiva nos olhos José virou-se e partiu
A imagem foi embora se desfazendo como um sonho, Alice andou para a porta.
-Que lugar e este? Ela perguntou parada na porta, Agatha estava parada olhando pela pequena janela falou como se não fosse para Alice que dissesse.
-Já me fizeram esta pergunta inúmeras vezes. Suspirou então olhou para a a mulher. –E um tipo de inferno, esta a resposta que sempre do. Andou ate a mesa que ali havia e puxou a cadeira. –E uma cidade amaldiçoada condenada a ficar sempre aqui e nunca ser vista pelo mundo a não ser em ocasiões especiais que e quando pessoas como você entram nela. Sento-se.
-Que tipo de maldição? Alice encostou-se no batente da porta e olhou tudo em volta.
-Do tipo que não passa mesmo quando você conseguiu sair daqui, eu sei disso.
-Por que você já saiu? Há quanto tempo esta aqui.
-Eu nasci aqui fui embora mais os pesadelos não passaram. Eles nunca passam.
Surpresa ela entrou na sala e andou devagar ate a mesa sentindo toda a aflição de sua vida ganhar algum sentindo, sentindo toda a terapia de anos perderem toda e qualquer validade.
-Eu tenho pesadelos também. Já sonhei com este lugar. Agatha olhou nos olhos de Alice e percebeu que ela não mentia e sorriu amargamente. “Sorriu como um amigo sorriria ao contar o que sentiu ao ser abandonado por uma pessoa amada. Outro amigo”. (homenagem a David Mustani Megadeth)
-A menor parte das pessoas que caem aqui também e são as que sofrem mais.
-Há assim você ajuda bastante. Alice virou-se para janela. –Quem são as pessoas lá fora?
-São nossos parentes, se você tem pesadelos com esta cidade então tem ligação com ela. Alice olhou assustada para Agatha que se levantava da cadeira.
-As pessoas mortas aqui eram moradores desta cidade.
-As mortas aqui sim, mais nem todos os fantasmas desta cidade são daqui. Agatha andou ate a porta e Alice andou atrás tentando entender a frase.
-Se você morre aqui fica preso aqui com a mesma condenação dos antigos, se você morre longe mais tem parentesco com eles será arrastado para cá. Ou seja, todos os nossos mortos estão aqui os antigos e os novos.
Alice se lembrou da menina que a chamava de mãe e sentiu um dor no peito ao perceber certas coisas.
-Por isso não faz mesmo diferença morrer aqui ou lá fora por isso vivo aqui dentro mesmo.
Agatha parou na porta e abriu. Olhou e viu que Alice estava apreensiva.
-Não tenha medo eles têm hora para sair. Agora só amanha e depois e depois. Agatha saiu da igreja e Alice a seguiu.

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